Clarice Lispector tinha o dom de transformar inquietação em literatura. Suas frases de reflexão não oferecem respostas — oferecem perguntas tão boas que a gente prefere ficar com elas do que com qualquer resposta pronta.
Ela escrevia sobre solidão, sobre a alma, sobre o cansaço de ser gente. E fazia tudo isso com uma intensidade que incomoda — no bom sentido. Ler Clarice é se olhar num espelho que mostra mais do que a gente gostaria de ver.
Sobre intensidade e cansaço de existir
Clarice sentia tudo demais. E transformava esse excesso em frases que tocam quem também não consegue viver pela metade.
Às vezes eu tenho vontade ser menos intensa, só pra poder entender como o resto do mundo aguenta essas coisas que me devoram permanentemente e de uma forma tão absurda…
— Clarice Lispector
Estou cansada. Meu cansaço vem muito porque sou pessoa extremamente ocupada: tomo conta do mundo. (in: Água Viva)
— Clarice Lispector
Vou dormir porque não estou suportando este meu mundo de hoje, cheio de coisas inúteis.
— Clarice Lispector
Serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas. O que eu disser soará fatal e inteiro.
— Clarice Lispector
Sobre solidão
A solidão de Clarice não é vitimismo. É constatação — e às vezes até escolha.
E ninguém é eu, e ninguém é você. Esta é a solidão.
— Clarice Lispector
Perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova da solidão de não pertencer começou a me invadir como heras num muro.
— Clarice Lispector
Desculpem eu ser eu. Quero ficar só! grita a alma do tímido que só se liberta na solidão. Contraditoriamente quer o quente aconchego das pessoas.
— Clarice Lispector
Eu tenho que ser minha amiga, senão não aguento a solidão.
— Clarice Lispector
Sobre provocação e verdade
Clarice não tinha paciência pra mornidão. Suas frases são convites — às vezes, empurrões — pra sair da zona de conforto.
Por isso, eu te peço. Me provoque. Me beije a boca. Me desafie. Me tire do sério. Me tire do tédio. Vire meu mundo do avesso!
— Clarice Lispector
No meu temperamento tem um pouco de pimenta: não é todo mundo que gosta? Nem todo mundo que aguenta?
— Clarice Lispector
Valorize quem te ama, esses sim merecem seu respeito. Quanto ao resto, bom… ninguém nunca precisou de restos para ser feliz.
— Clarice Lispector
Um pouco de aventura liberta a alma cativa do algoz cotidiano.
— Clarice Lispector
Sobre a alma e a escrita
Clarice escrevia pra sobreviver. A escrita era o jeito dela de fazer a alma falar.
Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir. Não sou pretensiosa. Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando…
— Clarice Lispector
Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras. Sou irritável e firo facilmente. Também sou muito calmo e perdoo logo. Não esqueço nunca. Mas há poucas coisas de que eu me lembre.
— Clarice Lispector
Clarice Lispector não era pra todo mundo — e ela sabia disso. Suas frases de reflexão não acalmam. Elas chacoalham, provocam, e deixam a gente com mais perguntas do que respostas. Mas talvez esse seja o ponto: quem precisa de respostas prontas não está refletindo de verdade.
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